Divagações

Carta ao meu filho: “escolhas”

Abertura inglesa… vou ter que aprender essa pra poder acompanhar. Pra quem não sabe, jogamos xadrez on-line há algum tempo. A abertura inglesa pode não ser tão exótica como ele me disse depois, mas está longe de ser das mais comuns, saindo com o peão do rei ou mesmo o peão da dama. Eu diria que ele tem um certo gosto por coisas menos óbvias. Diria mesmo que ele tem gostos e predileções incomuns para muitos adolescentes da sua idade. Nunca assistimos jogos de futebol juntos na TV, ou falamos sobre os melhores carros, ou sobre os heróis dos filmes de ação. Vimos pica-pau juntos quando ele era criança. Documentários no Discovery Channel, fomos em parques, fizemos trilhas, coisas assim.

O gosto musical dele é só dele. Embalei ele ao som de Beatles quando era bebê, a mãe colocou muita música italiana pra ele durante toda a vida, mas ele curte música eletrônica mesmo. Perguntei para ele sobre o assunto esses dias. E ele conhece muito mesmo. Não apenas ouve, conhece a história recente, se empolga ao falar do assunto, me explica a evolução. É escolha dele. Escolheu deixar os cabelos crescerem. Escolheu o jeito de se vestir, escolheu os amigos, escolheu ficar em casa.

Sempre achei que uma das coisas mais difíceis na vida é fazer escolhas. Tive algumas bem difíceis no caminho. Sempre procrastinei minhas decisões difíceis. Não decidir é uma decisão também. Deixar que outros decidam por nós é uma decisão cômoda. Mas assumir o ônus de suas decisões e seguir em frente é sempre o melhor caminho pra mim. Meu pai foi diagnosticado com diabetes ainda muito novo, estava na faculdade de medicina na época. E ele decidiu viver plenamente, decidiu morrer cedo. E arcou com a sua decisão. Não deixou bens para trás, não viveu muito tempo, mas teve uma vida plena, muitos amigos, e me ensinou muito. Nunca vi ele reclamar pelos mais de 10 anos que o castigaram depois do infarto. Ele tomou uma decisão e seguiu em frente.

Eu gosto muito de uma frase que o dramaturgo Antônio Abujamra, dizia para o seu filho:

“A vida é sua, estrague-a como quiser”

Parece um tanto cruel, mas é plena de sentido para mim. Cometa os seus próprios erros, trilhe o seu próprio caminho e arque com as suas decisões. Decidimos todos os dias. Se vamos estudar, se vamos escutar música, se vamos dormir mais, se vamos fazer exercícios, se vamos comer salada, se vamos ler ou ver um filme. Escolhemos se vamos dar atenção para um amigo, se vamos continuar um relacionamento com alguém, se vamos embora mais cedo. Escolhemos todos os dias. Se ficamos ou se vamos.

Eu fiz muitas escolhas ruins. E agradeço por ter feito muitas dessas escolhas ruins. Escolhi que queria mudar o mundo aos 17 anos. E errei muito ao achar que poderia fazê-lo. Mas não errei sozinho. Ao decidir, ao ir em frente independente do que os demais pensavam, trilhei meu caminho e encontrei outras pessoas nessa jornada. São meus amigos até hoje. Aprendi muito com meus erros, de modo que não seria eu mesmo hoje se não tivesse errado tanto. Tentar acertar, se lançar ao mundo, aprender com os próprios erros ao invés de culpar apenas o mundo à sua volta é uma arte difícil.

Temos o livre arbítrio por um lado, mas ao mesmo tempo estamos no mundo, em um lugar específico, em um momento histórico, crescemos numa família com uma cultura, com uma herança. E nesse momento eu sempre lembro de “O 18 de brumário de Luís Bonaparte”, que tive o prazer de ler, dizia algo assim logo nas primeiras linhas:

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”

Lembre-se sempre disso filho. As escolhas são suas, mas as possibilidades foram traçadas antes mesmo de você pensar que elas existiam. Não se culpe pelo mundo em que você vive hoje. Mas faça o que puder para que ele não seja ainda pior com a sua existência. Plante. Colha. Floresça.

Não tenho moral para lhe dar muitos conselhos hoje. Escolhi a profissão em que me encontro hoje na semana em que você nasceu, com meus 27 anos. Eu era coordenador de um projeto de ensino profissionalizante com inclusão social na época. O projeto era vitrine na cidade e parece que eu não estava me saindo muito bem no meu trabalho. Me ofereceram outras opções e dentre elas eu escolhi ganhar menos e cuidar dos computadores que tinham por lá… já que eu “tinha facilidade com essas coisas”. E eu me dediquei muito para virar essa chave. Acho que se eu pudesse dizer algo de realmente útil aqui seria para fazer alguma coisa com paixão na vida. Pegue algo que goste e tente ser bom nisso. Se dedique de verdade. Faça o melhor que puder. Tente aprender com isso. Independente do que os outros digam. Sem se comparar com os demais. Apenas tenha paixão por algo. E se encante com o fruto do seu próprio trabalho. Nada mais gratificante do que ver algo seu tomar forma. Pode ser uma escultura, pode ser um texto, pode ser uma música, pode ser uma ideia. Mas gaste tempo com isso. Se dedique de verdade. A vida não faz muito sentido sem paixão. Se apaixone por si mesmo, por aquilo que tem potencial para fazer. Faça. Aconteça. E às pessoas ao redor irão lhe reconhecer não por aquilo que você fala, não por aquilo que você gostaria de fazer, mas por aquilo que você constrói ao seu redor. E as pessoas certas irão aparecer na sua vida, os caminhos se abrirão a partir desse ponto de partida.

E hoje é o seu grande dia. Estou aqui radiante e feliz de você fazer as suas escolhas hoje. Talvez as possibilidades não sejam aquelas que você queria. Talvez a pandemia o deixe triste. Talvez você ache que não foi tão bem como poderia. Mas é o seu momento. De errar, de acertar e decidir o que vai fazer nos próximos anos. Não se assuste, você tem o direito de errar como o filho do Abujamra, você não terá todas as variáveis na mão, como dizia Karl Marx, mas você trilhará o seu caminho, único, seu. E deixará pessoas para trás no caminho, e encontrará novas. Encontros e despedidas irão acontecer. Pessoas nascem e morrem todos os dias. Lembre-se sempre do que lhe ensinou a aeromoça no avião:

“Em caso de emergência, coloque a máscara em si mesmo antes de ajudar os outros”

Parece um tanto egoista, mas o egoismo nada mais é do que um instinto de sobrevivência, como a dor, que alerta que algo não está bem e requer a sua atenção imediata. Se você não se preservar antes dos demais, não terá oxigênio para ajudar os demais, e irá morrer junto com eles, e deixará todos morrerem em vão. Coloque a máscara primeiro em você mesmo. Você precisa pensar em si mesmo antes. Precisa tomar suas decisões pensando em si mesmo. Em onde quer chegar, sem medo de ser feliz. Sem medo de deixar os pais e amigos para trás. Trilhe o seu caminho. Eu estarei aqui para lhe apoiar pelo tempo que me for possível. E o farei porque pude cuidar de mim mesmo primeiro também.

Mas, uma vez que esteja bem, uma última coisa eu queria lhe dizer. O mundo é um lugar melhor se for um mundo melhor para todos, não apenas para você. Há quem não acredite em altruísmo genuíno, que ninguém faz coisas boas para o próximo, senão para aplacar as suas próprias dores. Que todo gesto de caridade é um gesto egoísta. Desculpe Pondé, mas você está absolutamente enganado. O mundo precisa do bem comum. Precisamos que não haja miséria para que todos tenhamos uma vida mais digna. A vacina não funciona se apenas algumas pessoas tomarem suas doses… Não basta prosperar por si e para os seus, se ao seu redor todos sofrerem terrivelmente. Não acredite que para vencer na vida você precisa pisar sobre os demais. Essa ideia de que existem vencedores e vencidos é uma ótima forma de se dirigir ao caos, à “guerra de todos contra todos”. Viver em sociedade é acreditar que precisamos de um espaço público bom para todos. Que as ruas devem ser seguras para todos, que todos devem ter boa educação e saúde, que todos devem ter um abrigo para dormir no final do dia. E só assim todos poderemos ter uma vida melhor. Acredite em situações onde todos ganham. Há anos estamos aqui trabalhando com “Software Livre”, ou “Código Aberto”. Não é uma escolha inocente. Não compartilhamos o conhecimento de forma inocente. É a nossa forma de contribuir para todos. É o nosso quinhão. Todos ganham quando dividimos. E todos crescemos.

Errei muito na vida filho. E continuo errando. Sei lá quantos erros cometerei hoje. Mas queria te dizer que te amo muito filho. Tenho muito orgulho dos seus erros e acertos. Estou aqui torcendo por você, espero que saiba que poderá sempre contar comigo. Mas hoje é o seu dia. Vai lá e faça as suas escolhas, sem medo, com coragem. E siga a sua vida.

Te amo muito mesmo, só queria lhe dar um grande abraço hoje. Obrigado por fazer parte da minha vida e dos meus erros.

Leave a Reply

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.