Divagações

Para minha irmã caçula

Há cerca de 25 anos atrás ocorreu um fato dramático em minha vida que poucas pessoas conhecem. Aos 14 anos de idade minha irmã sofreu um acidente de automóvel fatal da BR 116 em direção à Curitiba. Ela dormia no banco de trás e soltou o cinto de segurança quando o carro capotou e ela morreu na hora. Foi algo chocante que abalou minha família de forma irreversível.  No dia em que ela morreu eu não chorei. Eu não me desesperei. Eu comecei a arrumar a casa pois sabia que iriam chegar muitas visitas na casa onde eu morava na época. É claro que eu amava a minha irmã. O fato é que naquele momento eu não desmontei. Eu permaneci firme e ajudei quem eu podia ajudar. Talvez eu esteja tendo um retrato equivocado de mim mesmo, já faz muito tempo e pode ser que outras pessoas tenham uma percepção diferente da minha reação naqueles dias.

No enterro, parentes e amigos da família encheram o cemitério de gente, todos muito tristes e chorando. Me abraçavam energicamente chorando muito, dizendo que eu deveria ser forte e tal. E eu achava tudo muito…  desconfortável. Eu já estava sendo forte. Eu não estava aos prantos nem chamando a atenção. Estava lá discretamente. Segurei a alça do caixão e ajudei a levar o corpo da minha irmã para o seu local de repouso. Depois houve a missa de sétimo dia. A missa foi dentro da escola onde ela estudava, havia uma capela lá que estava abarrotada de alunos em pleno início de janeiro. Foi um momento mais brando, com palavras mais serenas. Não havia um caixão fechado com um rosto desfigurado dentro. As palavras do padre foram gentis e delicadas. Meus pais já não estavam com o rosto tão inchado e com escoriações do acidente. Foi um bom momento, com pessoas que fizeram parte da vida da minha irmã lá. Pessoas com quem ela foi muito feliz nos últimos anos. Ela adorava aquela escola.

No ano novo eu fui passar a virada do ano com amigos na praia. Foi a primeira vez na vida que eu bebi bebida alcoólica na vida. Foi a primeira vez que eu fumei um cigarro. Não passei mal nem fiz nada de extraordinário. Estava com quase 18 anos e estava me abrindo para novas experiências. Para mim a vida estava indo muito bem, apesar do ocorrido. Dias depois, ao ir visitar um grande amigo, dei a notícia de que a minha irmã havia falecido. Naquele momento todos na casa pararam o que estavam fazendo para falar comigo. Ficaram chocados com a naturalidade que eu narrei os fatos. Como se eu tivesse a obrigação de estar chorando e estar terrivelmente abalado.

No final de janeiro eu me encontrei com os colegas do Grêmio Estudantil da escola e fomos preparar a recepção dos calouros. Eu havia começado a fumar e beber. As pessoas achavam que o fato de ter perdido a minha irmã havia me abalado profundamente e eu estava me entregando à vícios e coisa e tal. É verdade que eu só parei de fumar 10 anos depois… mas depois de um porre de whisky no meu aniversário de 18 anos, eu nunca mais passei da conta com bebida. Nunca. O que aconteceu é que meses antes da minha irmã falecer, eu estava na melhor época da minha vida até então. Havia encontrado um grupo de amigos incrível. E até hoje, são esses os meus melhores amigos. Estava feliz, acabara de fundar o grêmio da escola, era reconhecido pela minha atuação, tive minha primeira namorada, haviam debates acalorados, uma sensação de que estávamos mudando o mundo. E na verdade, estávamos mudando a nós mesmos, marcas que ficaram para o resto das nossas vidas. Tempo bom, que deixou muitas saudades. Já escrevi um pouco sobre isso aqui e aqui.

Mas o fato é que minha irmã se foi. Seguimos nossa vidas, estudamos, trabalhamos, nos apaixonamos, nos perdemos e nos encontramos. Não sei dizer onde minha irmã está metafisicamente. Se está no céu, se reencarnou, se teve algum destino após a vida. Ouvi muitas pessoas dizerem que quando mortes trágicas assim acontecem, há uma explicação espiritual para tudo isso. Eu sei que havia uma curva perigosa na BR 116, e nessa curva um caminhão derrubou areia na pista, e nessa areia um carro derrapou. O guard rail que estava ali estava solto, uma vez que haviam muitos acidentes naquele ponto e os responsáveis pela manutenção não se deram ao trabalho de prende-lo novamente. Sei que depois do guard rail havia um barranco e o carro capotou nele. E sei que depois da minha irmã virar estatística eu brigo sempre para as pessoas usarem o cinto de segurança mesmo no banco de trás.

Sei exatamente onde a minha irmã está nesse exato momento. Está na minha memória, na lembrança de momentos inesquecíveis da minha infância. De uma irmã que me entendia, me fazia companhia e que eu amava muito. Está na lembrança de toda a família, dos amigos e das pessoas que a conheceram. Está nas histórias de viagens em família, festas de aniversário, nas frases de efeito incríveis que ela fazia, no sorriso e no gosto por ouvir Elis Regina. Não preciso de explicações para saber que ela está comigo para sempre. Eu já me peguei pensando em como seria a vida dela se não houvesse areia na pista, se o guard rail estivesse preso, etc. Se ela teria se casado, se teria filhos, se teria uma carreira profissional brilhante, se moraria aqui por perto… Não sei dizer. Acho que teria uma vida incrível. Mas de fato, ela teve uma vida incrível. E por algum motivo, eu me pego lembrando dela com mais frequência ultimamente. Tenho que confessar, eu realmente sindo falta da minha irmã caçula. Hoje o caçula sou eu, mas tenho que dizer: minha irmã querida, o seu lugar estará sempre aqui comigo.

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