Quase 40…

Posso resistir bravamente à tentação de publicar aquele famoso balanço de fim de ano, contando o que aconteceu no findo ano e as promessas para o vindouro, mas o fato é que estou chegando perto dos 40… muito perto mesmo. E tanta coisa tem acontecido nos últimos tempos, não poderia deixar de parar um momento para refletir um pouco. O blog sempre foi um espaço privilegiado para minhas reflexões comigo e com o mundo que me cerca. Não consigo pensar num lugar melhor para essa reflexão hoje.

E vamos brincar em tópicos aqui, afinal, mais do que uma reflexão elaborada, ideias salpicadas vão brotando e gostaria de pontuar algumas coisas que aprendi nesses quase 40 anos….

  • Sou uma pessoa realmente boa de cama. Seja no ônibus, no metrô, no carro, na mesa do bar, falando ao telefone ou bem acompanhado. É muito raro eu perder o sono por alguma coisa. Em geral me tira o sono não conseguir honrar algum compromisso importante. Mas fora isso… durmo em segundos às vezes.
  • Tenho um profundo desprezo pela rotina, mas é algo que infelizmente eu preciso para a minha vida. Particularmente para manter uma alimentação saudável. Tem sido um trabalho constante manter uma dieta um pouco mais constante. Comer bem é fácil, o duro é se planejar para isso e comer em intervalos regulares. Disciplina tem sido um grande aprendizado nestes anos.
  • Sou capaz de fazer praticamente qualquer coisa por amor, por uma paixão ou por um amigo em dificuldades. As emoções me movem e despertam o melhor de mim. Achar um ponto de equilíbrio nisso é que é o problema. Nem sempre jogar tudo para o alto é a melhor coisa a se fazer.
  • Sei ser uma pessoa educada e agradável, mas muitas vezes isso não me convém. Prefiro ser uma pessoa autêntica e direta. Me encanto por pessoas diretas e autênticas também. Pessoas que agem assim comigo ganham meu eterno respeito. Me sinto imensamente mais confortável perto delas, mesmo que suas opiniões divirjam das minhas.
  • Nunca serei uma pessoa rodeada de muitos amigos. Não tenho paciência para amizades onde eu precise medir as palavras. Não tenho problema em sair sozinho, me divertir sozinho e gosto de ter meus momentos a sós com meus pensamentos. Ainda assim, nada me dá mais prazer na vida do que poder desfrutar da companhia de bons amigos. Sou capaz de conversar por muitas horas sem me cansar se a conversa for boa. Conversa chata me dá um sono irrefreável.
  • Não consigo me imaginar numa relação afetiva séria com alguém que não traga no seu íntimo doses generosas de solidariedade. Acho que talvez isso tenha haver com um certo complexo de Édipo. Minha mãe sempre foi uma pessoa extremamente generosa. Sempre admirei muito pessoas assim. Acho que numa relação afetiva, a falta desse traço de personalidade faz com que eu perca o interesse na pessoa em pouco tempo.
  • Sou uma pessoa realmente generosa. Por muito tempo que achei que não era. O fato de ser uma pessoa muitas vezes egoísta sempre me fez sentir que não poderia ser uma pessoa generosa. Hoje sei que são coisas distintas. Que o egoismo é fundamental para a autopreservação e capacidade de se reconstruir. Mas ser egoísta não me impede de ser uma pessoa solidária, de me preocupar genuinamente com o próximo.
  • Tenho um prazer enorme em ajudar o próximo. Pode ser um altruísmo egoísta, mas o fato é que me faz muito bem poder ajudar alguém. Não confunda isso com caridade. Se por um lado tenho claro que não tenho o poder de mudar ninguém, podemos estender a mão e abrir novos horizontes para as pessoas. Sempre penso na possibilidade de transformar o mundo à minha volta. Nada me dá mais prazer do que poder transformar positivamente o mundo que me cerca. As pessoas, as ideias, os processos, os valores.
  • Só conseguimos ajudar quem realmente quer ser ajudado, quem quer buscar um caminho. Existem pessoas que apenas nos sugam toda a energia e jamais querem mudar, melhorar, ou sair do buraco onde se encontram. Elas apenas querem que as pessoas sintam piedade delas e às alimente eternamente. Nada mais idiota do que a pessoa que entra num relacionamento achando que pode concertar os defeitos do outro. Por outro lado, é muito difícil enxergar o momento de estender a mão e o momento de deixar a pessoa se erguer com as próprias pernas. Quem tem um filho com dificuldades sabe como isso é difícil.
  • Lembro que meu pai me disse que um dos momentos mais difíceis da vida dele, foi quando viu que eu havia levado um fora de uma garota na adolescência. Ele sabia que não tinha muito o que pudesse fazer por mim a não ser estar lá. Acho que em muitos momentos, é tudo o que podemos fazer. E para quem está mal, é tudo o que precisamos. Se você gosta de alguém e não sabe o que fazer para ajudar em um momento difícil, apenas esteja lá. Mas não encha o saco, não faça mil perguntas ou de um monte de conselhos. Mas esteja presente, de corpo e alma.
  • Sou uma pessoa preconceituosa e odeio isso. Não gosto de lugares cheios. Não gosto de lugares com gente que ostenta demais. Não consigo manter uma conversa animada com pessoas que não tem ideias interessantes para mim. Tenho horror ao senso comum e ideias pasteurizadas. Amo a cultura popular, mas odeio a cultura de massas.
  • Sou um exibicionista… gosto de aparecer. Acho que o fato de gostar de dar aula, palestrar e manter um blog por mais de 10 anos, mostra bem como isso funciona. Adoro receber um comentário no blog, conversar com as pessoas no final de uma palestra, ser procurado por um ex aluno. Gosto de receber atenção e ser tratado como alguém importante para o próximo. Ego bem alimentado me faz uma pessoa muito mais feliz e proativa.
  • Eu sempre quis entender tudo sobre o mundo que me cerca. Sempre fui muito curioso sobre tudo. Sempre quis saber o que as pessoas pensam e sentem. Sempre fui atrás de uma ilusão de verdade. Hoje acho que sentimento não tem verdade, não tem razão, não cabe análise. A gente sente e pronto. Se uma pessoa não gosta de você, ou deixou de gostar, ou passou a gostar de repente, provavelmente não há um motivo racional para isso. Simplesmente acontece. Há uma enormidade de sensações, experiências, valores, sabores, odores, limites, gatilhos e mecanismos que a gente não entende bem em nós mesmos. Eles podem nos levar a sentimentos e comportamentos inesperados e inexplicáveis para a nossa própria razão.
  • Sentimento não tem culpa. A culpa é uma das coisas que não ajuda ninguém a entender o que acontece. Enquanto você procurar a culpa para fenômenos irracionais, você carregará dor e raiva, e jamais vai conseguir deixar a vida seguir seu curso.
  • Eu sempre quis ajudar a mudar o mundo, mudar as estruturas da sociedade, buscar alternativas mais justas para distribuir a riqueza que produzimos. Sempre acreditei no que Marx definiu como o ideal de sociedade em que teríamos “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades“. Mas para que essa sociedade seja possível, mais do que transformar a sociedade, precisamos antes de tudo, transformar nós mesmos enquanto seres humanos, precisamos transformar o que nos sustenta como humanidade, precisamos transformar a nossa cultura.
  • Expectativa é o grande mal desse século. Somos bombardeados por expectativas o tempo todo. Todos querem um amor de cinema. Todos precisam de um por do sol espetacular, um restaurante divino, uma novidade incrível, uma piada genial, um produto revolucionário, uma mulher turbinada, ser melhor que todos em alguma coisa. Menos gente…. menos. Vamos viver o que é possível, o sol vai nascer amanhã… vamos viver o que há pra viver, hoje.
  • Morro de vergonha de dançar. Quando era adolescente eu era o cara estranho da sala e nunca aprendi a dançar. Dançar tem haver com essa fragilidade de não se pertencer ao grupo, de ser isolado. Tenho muita vontade de aprender, acho uma delícia, mas ainda não achei alguém que topasse me ensinar.
  • Acho que o melhor papo de botequim gira sempre em torno de política, sociedade, arte (cinema, música, etc), relações humanas, e claro, sexo. Futebol, carros e novela me dão sono.
  • Tesão está relacionado com uma infinidade de coisas objetivas e subjetivas. Variam muito de pessoa para pessoa e de momento para momento. Nem sempre o que se vende como algo muito desejado por todos, vai ser interessante para você. Acredite, o Ponto G realmente fica no cérebro. E o cérebro é muito mais misterioso e complexo e volátil do que imaginamos.
  • Ter ganhado peso mexeu muito mais com a minha auto-estima do que eu poderia imaginar. Por muito tempo tive vergonha de encontrar meus amigos. Por mais que você possa ser inteligente, fazer coisas interessantes, ajudar as pessoas a sua volta etc. e tal, ainda é bom se sentir atraente fisicamente. Sim, existem pessoas que realmente acham sexy um homem gordinho, mas eu extrapolei bem essa classificação. Meu rosto ficou deformado demais e eu deixei de me reconhecer como homem. Hoje sei que se eu não me sentir desejável para o outro, não existe a menor possibilidade das coisas funcionarem bem.
  • Por outro lado… ninguém quer ser apenas um pedaço de carne. Todo mundo quer se sentir especial para os seus pares. Ser admirado é fundamental, não apenas fisicamente, mas pela pessoa que você é, pelo que você pensa  e faz.
  • E nisso gostos e predileções entram em cena. A capacidade de dividir bons momentos com os demais é que faz a diferença. Escolhemos nossa companhia por aquilo que eles tem a nos oferecer. Um bom papo, planos para mudar o mundo, dançar, andar de bicicleta, fazer uma trilha até uma cachoeira, tomar sorvete no parque, ver cinema europeu, sessão da tarde no sofá, uma partida de xadrez, uma boa cerveja num bar.
  • É possível amar mais de uma vez. Não existe uma única pessoa predestinada a te completar para o resto da vida. Existem pessoas que desejam viver determinado tipo de situação e que caminham num determinado tempo na mesma direção.
  • Eu realmente acredito no amor. Acho que fui muito amado pelos pais. Só isso me traz uma enorme referência. O amor existe e vale à pena. Também é possível amar mais de uma vez e de diferentes formas. Portanto não se preocupe se esta pessoa será ou não o seu grande amor para a vida toda. Pode ser ou não. Mas se não for, ou se acabar, outros virão.
  • Ainda cometo a maioria dos erros que citei a cima. Não gosto disso, mas vou me policiando… um dia quem sabe consigo evitá-los, ou errar um pouco menos. Fiz um bom progresso em algumas coisas. Estou tentando.

Bom, nada de grandes planos para os próximos 40 anos. A vida vai indo bem. Tenho perdido peso, a Timbira tem ganhado novos clientes, tenho pedalado bem, conhecido gente realmente interessante, feito coisas diferentes, planejando viagens bacanas. A sensação é a de que a vida ainda está começando. Ainda tenho muito o que aprender, muito o que me divertir e muito o que viver.

1 comentário

  1. Walter Cruz Responder

    Gostei muito da diferenciação entre egoísmo e egocentrismo. Procura sobre eneagrama de personalidade, pela descrição vc deve ser tipo 2.

    • telles Autor do postResponder

      Fui olhar sobre os eneagramas. Parece interessante, não conhecia. Acho que estou mais para o tipo 7. Conheço mais os 16 tipos do Jung, onde geralmente fico entre o ENTP ou ENFP.

  2. Rejane Responder

    Amei tudo isso e me identifiquei bastante.que a gente siga vivendo, tentando e progredindo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *