Pedalando por aí…

Eu tinha 7 anos quando meu tio, vestido de papai noel trouxe a bicicleta! Uma Peugeot. Nessa época eu não sabia que era uma bicicleta especial. O presente era para ser dividido com a minha irmã mais velha, mas logo se tornou minha companheira inseparável.  As rodinhas ficaram para trás depois de mais ou menos um mês.  Eu só podia andar pelas áreas comuns do prédio… mas naquela época já era bem divertido. Primeiro dia sem rodinhas, primeiro tombo de verdade… já aprontando claro. Fui fazer uma curva sem uma das mãos no guidão. A bicicleta ganhou acessórios, uma buzina, um banco diferente, etc e tal. Quando me mudei para uma casa eu aos poucos fui conquistando algo inesquecível… o direito de andar de bicicleta pelas ruas.

Poder andar pelas ruas sem pai nem mãe por perto sobre uma bicicleta tem um impacto incrível na vida de uma criança. Eu tinha ganhado o mundo. Podia ir para onde quisesse. Bastaria ter pernas para isso, e saber achar o caminho de volta para casa. Então as pernas ganharam força, aprendi a olhar mapas e fui desvendando os caminhos, nomes de ruas e lugares do bairro. O lado pobre, o rico, o inusitado, e por aí vai. Meu pai tinha uma Caloi 10. Passeamos algumas vezes juntos. Houve um ou dois passeios que organizaram com os amigos, com carro de apoio e tudo o mais. Foi quando descobri que minhas pernas poderiam me levar mais longe. Ganhei confiança, ganhei a cidade.

Tive outras bicicletas no caminho. A Caloi Cross que estava na moda, pesava muito mais que a velha Peugeot, mas não tinha comercial dela na TV… Depois veio a Caloi Cruiser. Eu ficava pequeno nela, mas com ela já ia para a escola com frequência. Muito mais divertido que pegar o ônibus. E de vez em quando, eu resolvia matar aula na escola e ficava passeando pela cidade. Quando fui estudar em outra cidade, a bicicleta era uma alternativa rápida ao ônibus. Mas já eram mais de 20Km, com asfalto ruim, subidas enormes e um trânsito bem pesado. O rosto chegava preto de fuligem. O pneu da bicicleta rasgava na lateral e não durava nem 2 meses direito. Mas posso dizer que as pernas estavam muito bem. E eu levava 15 minutos a menos que o ônibus.

Aos 20 e poucos anos comprei uma speed usada com sapatilhas, bermuda de ciclista, capacete e tudo o mais. Comecei a andar em estrada e cheguei no auge da boa forma. Foi quando a bicicleta salvou a minha vida. Comecei a sentir uma dor no joelho. Estava com um tumor na cabeça da fíbula. Um pedaço de mais de 2cm de osso foi removido e nunca mais tive problemas. O tumor era agressivo e estava crescendo rapidamente. Se eu não estivesse pedalando, o tumor teria crescido e se alastrado antes de eu perceber alguma coisa. Se não houvesse o diagnosticado precoce, certamente eu não estaria escrevendo aqui. Alguns meses depois da cirurgia e eu já estava indo para o trabalho de bicicleta.

Pedalar nem sempre foi um esporte solitário. Houve bons colegas de pedal. Grandes amigos e bons momentos sem dúvida. Tive momentos ruins, 3 bicicletas roubadas e uma que entortou toda num tombo um pouco pior.  Mas nunca me feri seriamente. Sei que muita gente tem medo de andar no trânsito. Realmente tem momentos que não é fácil. O asfalto é ruim, muitas ladeiras no caminho, trãnsito, barulho, poluição. Quase nunca você encontra lugar para estacionar a bicileta, e você ainda pode ser roubado. Tive mais acidentes de automóvel do que acidentes de bicicleta. Furo semáforo às vezes, ando ocasionalmente na contra mão, etc. Mas com o tempo o bom senso vai prevalecendo. Você começa a perceber a cidade de outro jeito. Sempre respeitar o pedestre, jamais subir na calçada, evitar andar na contra mão, particularmente em vias de alto tráfego, usar capacete, luzes de sinalização e por aí vai.

Houve um hiato de 12 anos no qual estive casado e deixei a minha speed literalmente apodrecer na chuva. Muito triste pensar nisso hoje. O cachorro devorou minhas sapatilhas e nunca mais pedalei. Depois do divórcio a vontade de pedalar estava latente. Mas o sobrepeso era uma preocupação. Precisaria comprar uma bicicleta muito reforçada para aguentar o meu peso. Mas o peso foi caindo, alguns amigos me chamaram para pedalar, e não resisti mais à tentação. Hoje a bicicleta é assunto sério. Alternativa de transporte para grandes cidades, lazer e esporte para um número cada vez maior de pessoas. As vendas não param de crescer. A malha cicloviária cresce em todo país. Não consegui convencer meu filho a aprender a pedalar, mas as possibilidades andam cada vez mais interessantes. Além de ir trabalhar, pedalar aos domingos, existem os grupos que saem para pedalar à noite para todos os gostos. Além de mais seguro, você tem a oportunidade de conhecer novas pessoas, conhecer novos lugares e aprender um bocado com os demais. Recomendo.

Estou sempre convidando as pessoas para saírem para pedalar. Acho que é algo que as pessoas deveriam experimentar e compartilhar independente de idade, sexo ou condição social. A bicicleta sempre ocupou um espaço importante na minha vida. É uma paixão que não deve sumir tão cedo. Não acho que eu vá voltar a andar numa speed, mas cicloturismo está na pauta, e pequenas viagens começam a sair do papel e se tornar realidade. Prestes a completar meus 40 anos, eu me lembro de quando era adolescente e era ultrapassado por um senhor em sua bicicleta que mantinha um bom rítmo  e pedalava com tranquilidade. Hoje, este senhor sou eu…

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