Ações de boa fé

Existem épocas em que a gente está com um mau humor do cão. Não tem vontade de cumprimentar ninguém e se fecha no seu mundo e fica quieto no seu canto. No entanto, há momentos em que estamos de bem com a vida e tudo se torna mais simples. Apesar das inúmeras turbulências pelas quais estou passando, acho que algumas coisas tem se tornado mais simples na minha vida e várias assumiram um tom mais suave. Vida simples, vida feliz.

E lá estava eu voltando do trabalho umas 22h da noite quando saio de uma via expressa e pego um trecho meio ermo numa região um pouco complicada da cidade. Aí vejo 3 senhoritas saltando fora do carro e tentando empurrar. Abri o vidro do carro e perguntei se precisavam de ajuda, e uma logo respondeu que sim. Encostei o carro e logo que saltei já havia um morador local entre elas. Fiquei ali de olho e não me meti. Ao seu modo o cara foi bem simpático. O cabo do acelerador havia se rompido. Sugeri que elas tentassem engatar a segunda e trocassem de marcha sem a embreagem mesmo até chegarem em casa. A motorista disse que morava longe e que não se sentia confortável em tentar fazer isso. Considerando o destino delas e a insegurança, ficar parado em uma via expressa poderia ser mais complicado do que a situação onde elas estavam no momento.

Perguntei se elas tinham seguro. Tinham, mas elas haviam sido assaltadas há poucos dias e estavam sem o cartão da seguradora. Passaram um tempo ligando para casa até conseguirem o número da seguradora e entrarem em contato. No final deu tudo certo. Mas o guincho demorou um tanto para chegar. E eu fiquei lá sacando o movimento e notei que as três estavam um bocado nervosas. Apesar do rapaz que morava logo em frente tentar tranquilizar elas, parece que o efeito foi o contrário. De fato, eu conheço a região e sei que não é um bom lugar para se estar sozinho, ainda mais naquele horário.

Acabei esperando o guincho chegar e aí foi tudo tranquilo. Veio ainda um carro enviado pela seguradora para levar as outras duas (que não foram junto com o guincho) e nos despedimos. Uma delas quis me deixar o telefone e eu disse que não precisava. Antes de ir embora acabou me deixando o cartão. De fato, eu não queria demonstrar que tinha qualquer interesse particular na situação. Sim, eram três senhoritas muito simpáticas e bonitas. Claro que eu reparei. Mas a minha intenção era deixa-las à vontade e não ser um desconforto à mais numa situação já tensa para elas.

Eu acredito mesmo que ajudamos às pessoas pelo simples fato de que podemos e desejamos o bem do próximo. Não precisamos esperar retribuição. Acho que a melhor contribuição que podemos esperar é que os outros façam o mesmo quando encontrarem alguém precisando de ajuda. No final, fiquei feliz em poder ajudar. Simples assim. Gestos assim podem não mudar o mundo, mas podem tornar a vida mais leve. E eu realmente acho que solidariedade se pode começar a construir à partir de pequenos gestos. Como quando alguém que eu nunca vi e manda um e-mail pedindo ajuda sobre uma questão técnica. Já perdi um bom tempo ajudando algumas pessoas que eu não tenho a menor ideia de quem são. Alguns diriam que eu sou bobo, pois eu poderia ganhar dinheiro com isso afinal, esse é o meu ganha pão. Mas acho que ajudar ao próximo ainda está na pauta do dia, mesmo como “empresário”. E sempre haverá espaço para atuar profissionalmente e para ser solidário. Alias, existe espaço para ser solidário mesmo quando se atua profissionalmente.

Bom, por hoje é só. Um abraço para todas(os).

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