A Formação do Censo Crítico na sociedade atual

Este texto foi escrito em julho de 95 para o jornal “Estopim”. No entanto o texto ficou muito pesado e eu acabei nunca publicando.

A partir do momento em que o homem nasce até o momento em que morre, ele absorve uma série de conceitos da sociedade que o ensinam a guiar-se pela mesma. Estes conceitos, de uma forma geral, consistem em idéias que ao longo do tempo vão formando o caráter da pessoa, influindo em todas as suas decisões, lhe dizendo o que sonhar, o que respeitar, o que repudiar, o que vestir ou o que dizer.

Nos primeiros anos de vida, a criança absorve cegamente a tudo o que lhe ensinam, os gestos, o idioma e os valores básicos da sociedade. Este aprendizado ocorre sem a menor objeção a qualquer idéia ou definição proposta pelos seus pais ou responsáveis pela sua educação. Desta maneira, tudo o que lhe for ensinado, assume o valor de verdade absoluta.

Conforme a criança começa a ampliar o seu convívio com outras pessoas, esta passa a assimilar novos conceitos e cabe a ela, pela primeira vez, confrontar seus antigos conceitos com os novos e decidir qual deles adotar para si mesmo. Ocorre, porém, que por muitas vezes, é imposto a criança um conceito, sem uma explicação lógica do motivo pelo qual não adotar um outro. A medida em que a criança aceita passivamente a imposição destes conceitos, ela deixa de desenvolver o seu senso crítico sobre o que é certo ou errado.

O modo pelo qual as idéias são assimiladas pelo ser humano é muito explorado pela sociedade, sendo que uma pessoa sem senso crítico tende a aceitar todo tipo de imposição sem reação a mesma. O modo como as idéias se incorporam são muito diversificadas e muitas vezes são tão sutis, que passam desapercebidas. Pais com uma formação rígida privam o filho de criticar seus atos. Os pais não se vêm na obrigação de em nenhum momento explicar seus atos ou suas idéias. O filho alem de aceitar essas idéias, torna-se incapaz de defende-las uma vez que faltam argumentos lógicos para isso. Isto continua ocorrendo a partir do momento em que o filho estuda numa escola de padrões rígidos. O aluno já não sente a necessidade de que o professor lhe explique o fundamento das teorias que aprende, pois a escola apresenta o conhecimento como algo absoluto e verdadeiro, dificultando novamente o desenvolvimento do senso crítico do aluno.

Um lugar em que a imposição de idéias é muito clara são as forças armadas, lugar onde a crítica de um superior é punida severamente porque a organização militar tem como filosofia a negação do senso crítico. Na religião é comum o fato de um membro de uma igreja não concordar com alguns de seus princípios e isso ser considerado pecado. No trabalho, empresas com uma hierarquia rígida possuem uma estrutura onde um subordinado não deve jamais criticar o seu superior. Hoje a crítica é vista como algo nocivo a sociedade, e não como um meio de se tentar aprimorar constantemente a mesma. Desta forma, torna-se claro, a idéia de que existem alguns setores na sociedade que tentam inibir o senso crítico das pessoas, de maneira a limitar o nú­mero de pessoas que critiquem seus dogmas e suas ações.

Infelizmente, para se formar uma opinião consistente sobre um determinado assunto é necessário muito mais do que liberdade de expressão. Em primeiro lugar é necessária a coleta de opiniões diversas sobre o assunto em questão, o que não costuma ser algo muito simples uma vez que isto exige o contato com diferentes grupos de opinião. Poucas pessoas têm contato com mais de um meio de comunicação ao mesmo tempo e ainda com opiniões divergentes. As pessoas também tendem a conviver sempre em grupos de opiniões semelhantes, o que torna mais difícil o contato com idéias novas. Alem disso, a rotina de trabalho em que boa parte da população está submetida restringe a oportunidade conhecer novas pessoas continuamente. Por fim, as pessoas têm uma resistência natural a coisas novas e principalmente a idéias novas. Muitas assumem que tudo o que elas consideram certo, estará sempre certo, não havendo a necessidade de se ouvir novas opiniões.

O próximo passo para se formar uma opinião, seria confrontar as diversas idéias e concluir algo a respeito. Para que isto ocorra é preciso analisar racionalmente cada uma das opiniões, sem tomar nenhuma delas como uma verdade absoluta. É preciso verificar a validade de todos argumentos pró e contra, e depois medir a importância de cada um deles.

A partir do momento em que as pessoas se informam cada vez mais através da televisão, torna-se difícil o confronto de idéias, uma vez que durante um noticiário na TV, todos os sentidos da pessoa estão ocupados apenas em decodificar as informações transmitidas. A TV não permite que você pare para raciocinar sobre cada tema apresentado pela mesma. Não é possível debater o tema com outra pessoa e prestar atenção à TV ao mesmo tempo! Cada vez menos a literatura é utilizada como meio pelo qual se adquire o conhecimento. A tendência mundial é utilizar recursos de “multimídia” para se obter o conhecimento. As pessoas dedicam cada vez menos tempo na busca do conhecimento e é neste momento em que a TV ou o rádio aparenta ser o melhor meio de se ab­sorver uma grande gama de informações em pouco tempo. Caso as pessoas não parem posteriormente para refletir sobre as idéias absorvidas, elas correm o risco de aceitar estas idéias como verdades absolutas, elas correm o risco de escutar, mas não ouvir!

Após se formar uma opinião, é importante checar se a conclusão obtida através do confronto de idéias não fere em momento algum outro conceito que se tinha como correto anteriormente. Omitindo-se esta passagem, corre-se o risco de se criar um pensamento contraditório, incoerente. Quando uma nova conclusão se contradiz com uma anterior, é necessário que se confronte estas duas conclusões. É neste momento em que o ser humano é obrigado a se rever e colocar em cheque as suas opiniões. É neste momento em que o ser humano tem a oportunidade de mudar, de evoluir. É neste momento em que o ser humano deveria se considerar um animal racional!

1 comentário

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  2. Éllida Responder

    Otimo adorei poder ter lido mais um pouco sobre a”Sociedade Atual” é muito importante que o ser humano saiba sobre esse assunto tão inportante!
    Interessantissimo!!

  3. Cleyde Responder

    Olá, gosto muito da área de psicologia e como tenho 02 filhos em idade de formação, gostaria de saber você tem mais algum texto ou indicação de site contendo o assunto “FORMAÇÃO DE SENSO CRITICO EM CRIANÇAS”. Como mãe tenho o mal hábito de impor minha opinião e minhas idéias. Estava lendo uma matéria sobre senso crítico onde fala da formação por meio da escola e da educação familiar, isso me fez pensar em mim mesma e como ensino (ou não) meus filhos a terem esse tal senso crítico. Caso haja algo dentro do tema, agradeço.

  4. Telles Autor do postResponder

    Olha, eu escrevi este texto faz um bom tempo, eu tinha então os meus 20 anos. Mas na minha passagem como educador, eu aprendi a gostar muito da teoria do construtivismo. Esta é talvez uma teoria que lhe ajude a encarar melhor a questão do “Censo Crítico” com o olhar da educação. Vide: http://pt.wikipedia.org/wiki/Socioconstrutivismo

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  6. elvis Responder

    Não seria Senso Crítico em vez de Censo Crítico? Vi q o texto é antigo, mas tá errado professor!

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